Seus Pais, Além de Seus Pais, São Pessoas

A libertação através da diferenciação emocional e o fim da busca pelo amor idealizado

Uma das maiores e mais silenciosas dores vivenciadas por quem cresceu em lares disfuncionais ou com pais emocionalmente distantes é o sentimento crônico de não se sentir amado ou seguro no primeiro lugar que acolhe a nossa existência, que é a própria família. É inegável que a forma como fomos criados nos influencia profundamente, pois a dinâmica familiar funciona como a nossa primeira grande escola sobre o funcionamento do mundo. É ali que assimilamos, ainda sem filtros, as primeiras respostas sobre se o mundo é um lugar seguro ou perigoso e se seremos aceitos ou rejeitados por quem realmente somos.

Conforme crescemos e expandimos nossos horizontes para além do núcleo primário, fazemos amigos, construímos relacionamentos afetivos e encontramos lugares de cuidado e acolhimento que jamais conhecemos dentro de casa. No entanto, mesmo vivenciando novos afetos genuínos, a antiga ferida frequentemente recusa-se a ir embora. Isso acontece porque a resposta reside no contraste entre a realidade vivida e a idealização social. Desde a infância, fomos expostos a discursos do senso comum que repetem que a mãe é o maior amor do mundo e faz de tudo pelos filhos, enquanto o pai é visto como o grande protetor e provedor.

A realidade, contudo, é muito mais complexa do que os mitos sociais. Existem mães e mães, pais e pais, genitores e genitoras. Nem todas as pessoas possuem maturidade ou recursos emocionais para oferecer o cuidado que a sociedade espera, e é justamente nessa expectativa irreal que muitos filhos se perdem. Durante a infância, passamos por uma fase de profunda confluência no desenvolvimento infantil, em que a criança não possui a capacidade psicológica de se diferenciar dos pais, percebendo a si mesma e aos cuidadores como uma única estrutura.

Nesse estágio, opera o que a psicologia chama de onipotência narcísica, momento em que a criança interpreta tudo o que acontece ao seu redor como uma consequência direta de quem ela é. Na mente infantil, desenham-se conclusões inconscientes de que, se o pai está triste ou irritado, a culpa é dela, ou de que, se a mãe está brava e distante, é porque ela não é boa o suficiente. Guardamos essas certezas dolorosas no inconsciente e continuamos a carregá-las até a vida adulta, mantendo viva a ferida da rejeição.

Para amadurecer emocionalmente, é indispensável passar por um processo de atualização interna e nos separarmos emocionalmente dos nossos pais. Como sintetizou Renato Russo com rara lucidez na canção Pais e Filhos, ao questionar por que culpamos nossos pais por tudo se eles são apenas crianças como nós, entender nossos pais como pessoas nos ajuda a enxergar quem realmente está diante de nós, e não quem gostaríamos ou achamos que deveria estar.

Aprender sobre a história de vida dos seus pais, com suas bagagens, traumas, potências e fragilidades, conduz à virada de chave mais libertadora da vida adulta: compreender que não é sobre você. Se os seus pais não o trataram com o carinho que você merecia ou se não conseguiram lhe proporcionar um ambiente de estabilidade e afeto, isso não define o seu valor. Trata-se apenas do limite do que aquelas pessoas podiam oferecer com as ferramentas emocionais e a história que carregavam.

Embora os seres humanos possam mudar quando querem e se dedicam a isso, não é função do filho ou da filha curar, educar ou mudar os próprios pais. Grande parte do amadurecimento adulto consiste em desenvolver a consciência dos limites relacionais, reconhecendo onde termina o seu espaço e onde começa o do outro. Compreender quem é a pessoa real à sua frente permite avaliar com clareza o que ela pode e o que ela definitivamente não pode lhe oferecer.

Enxergar seus pais como seres humanos falhos não significa validar maus-tratos ou negligências, mas sim se descartar da ilusão de uma dívida emocional que não é sua. Conhecer seus pais é localizar-se na história da sua família, compreendendo como é possível se posicionar nessa relação de forma saudável ou, se necessário, exercer o direito de se afastar. No fim das contas, seus pais, além de seus pais, são pessoas, e a relação com eles precisa ser encarada com a mesma maturidade, limites e realidade com que encaramos qualquer outro vínculo humano.

Esse é um artigo de opinião, de autoria própria redigido por Bárbara Hirle - Psicóloga CRP 06/209534

Reprodução autorizada, desde que seja atribuído o devido crédito, conforme a Lei de Direitos Autorais (Lei nº 9.610/98).

Bárbara Hirle - Psicóloga Clínica © 2025. Desenvolvido por 🧡 Be Seven

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