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O que estamos fazendo com o amor?
17 de mar. de 2026
Entre as demandas da vida adulta e a urgência do relógio, onde fica o espaço para o encontro? A partir de uma provocação ouvida em consultório — 'o que estamos fazendo com o amor?' — este artigo convida a uma pausa necessária. Uma reflexão sobre como a rotina pode invisibilizar a conexão do casal e como podemos resgatar a intimidade através de gestos simples e presença real.

No silêncio de uma sessão, entre um suspiro e outro, uma pergunta cortou o ar e ficou suspensa, como se tivesse corpo próprio: "O que estamos fazendo com o amor?".
Falávamos sobre a pressa, esse relógio invisível que dita o ritmo dos nossos passos e nos rouba o fôlego. Na vida adulta, parece que fomos treinados para a eficiência, para o "dar conta". Construímos castelos de produtividade, empilhamos boletos, metas e prazos, enquanto o amor — esse convidado que chegou com promessas de eternidade — vai sendo empurrado para o fundo do corredor.
A rotina tem essa capacidade perversa de tornar o essencial invisível. O par, que antes era o porto, vira o sócio da logística. A intimidade, que precisa de tempo para respirar e de silêncio para se ouvir, acaba soterrada pelo ruído das notificações e pela exaustão que nos faz desabar no sofá, lado a lado, mas a quilômetros de distância. O amor, então, vira um inquilino silencioso que já não reconhecemos mais na penumbra do quarto.
Mas a pergunta persiste, insistente e doce: o que estamos fazendo com o amor?
Se pararmos para olhar, talvez percebamos que ele está ali, esperando um convite. Que tal, então, brincar de ser presença? Em vez de apenas gerir a vida, que tal fazer um jantar com o amor? Deixar que o tempero seja o olhar demorado, sem pressa de acabar.
Quem sabe preparar um piquenique com o amor no meio da sala, trocando o teto de estrelas pelo teto da nossa própria história, mas com a mesma vontade de descobrir o mundo? Que tal apenas assistir ao tempo com o amor, vendo as horas passarem como quem observa a chuva, sem a obrigação de produzir nada além de afeto?
E, ao fim do dia, dormir com o amor. Não apenas dividir o espaço físico da cama, mas recolher-se no abraço que diz: "eu te vejo, eu estou aqui".
O amor não é um substantivo estático, guardado em uma caixa de recordações. Ele é verbo. É o que fazemos no aqui e agora. Talvez a resposta para aquela pergunta seja, simplesmente, abrir a porta e convidar o amor para sentar à mesa e ficar um pouco mais.
Esse é um artigo de opinião, de autoria própria redigido por Bárbara Hirle - Psicóloga CRP 06/209534
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