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Onde você estava enquanto o café esfriava?
19 de mar. de 2026
Onde você estava enquanto o café esfriava? Muitas vezes vivemos no 'modo rascunho', com o corpo no presente e a mente no futuro. Neste artigo, convido você a entender como a ansiedade interrompe nossa conexão com a vida e ofereço um exercício prático de Gestalt para você 'aterrar' e voltar para casa — para dentro de si.

Quantas vezes você já se pegou terminando uma refeição sem sequer lembrar do sabor do primeiro garfo? Ou talvez você tenha dirigido até o trabalho e, ao estacionar, percebeu que não registrou o caminho, as árvores ou o movimento das ruas. Vivemos em uma era onde a nossa presença é constantemente sequestrada. O corpo está aqui, sentado na cadeira ou segurando uma caneca quente, mas a mente já atravessou a fronteira do amanhã, organizando listas de tarefas, antecipando diálogos ou tentando resolver problemas que ainda nem existem.
Na Gestalt-terapia, olhamos para esse fenômeno como uma interrupção do contato. A ansiedade, nesse contexto, funciona como um estado de "exílio" de si mesmo. É como se estivéssemos vivendo a vida no modo rascunho: fazemos o hoje com pressa, acreditando que a "vida de verdade" — aquela onde estaremos tranquilos, realizados ou seguros — só vai começar quando o próximo projeto terminar, quando as férias chegarem ou quando os boletos estiverem pagos. Enquanto isso, o café esfria na mesa e a vida acontece nas margens da nossa desatenção.
O grande risco desse modo de operar é que, ao fugirmos para o futuro, abandonamos a única pessoa capaz de sustentar o peso da nossa existência: nós mesmos, no agora. Quando a cabeça está na semana que vem, os nossos recursos internos ficam desamparados. Não conseguimos sentir o apoio do chão sob nossos pés, o ritmo da nossa respiração ou as necessidades reais do nosso organismo. Ficamos exaustos não apenas pelo que fazemos, mas pelo esforço contínuo de "estar em outro lugar".
Aprender a "aterrar" não significa alcançar um estado de meditação profunda ou estar "zen" o tempo todo — uma cobrança que, por si só, já gera mais ansiedade. Estar presente é, na verdade, um ato de humildade e percepção. É o exercício de notar o peso do corpo na cadeira enquanto você lê este texto. É sentir o calor da água no banho. É permitir-se chegar, de fato, aos lugares onde você já está fisicamente.
A terapia, nesse sentido, funciona como um convite para o retorno. É o espaço sagrado onde paramos de correr para o futuro e começamos a pousar no presente. É um processo de reeducação do olhar, onde aprendemos que a segurança não vem do controle absoluto sobre o amanhã, mas da nossa capacidade de estar inteiros para lidar com o que quer que surja hoje. Afinal, a vida não é o que acontece depois da próxima meta; a vida é, precisamente, o que ocorre enquanto você percebe que o café ainda está quente e decide, finalmente, dar o primeiro gole.
Se você sentiu que este texto descreveu um pouco da sua rotina, eu te convido a fazer uma pausa de apenas dois minutos agora mesmo. Não é preciso fechar os olhos ou mudar de lugar, apenas mude o foco:
Sinta o apoio: Note o peso do seu corpo onde você está sentado ou encostado. Sinta o contato dos pés com o chão.
Observe o entorno: Identifique três objetos ao seu redor que você não tinha notado hoje. Repare nas cores e texturas.
Aqueça a percepção: Se estiver com uma bebida, sinta o calor da xícara nas mãos. Se não, sinta o toque da sua roupa na pele.
Escute o silêncio (ou o ruído): O que você ouve além dos seus pensamentos? O barulho de um carro lá fora, o zumbido do computador, a sua própria respiração?
Respire e chegue: Dê uma inspiração profunda, sentindo o ar entrando e saindo.
Estar presente não é um destino final, mas uma escolha que renovamos a cada minuto. O café pode ter esfriado, mas você acabou de chegar para o próximo gole.
Esse é um artigo de opinião, de autoria própria redigido por Bárbara Hirle - Psicóloga CRP 06/209534
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